a praia que tinhas em mente já não existe entre Junho e Setembro
Duas horas de estacionamento por dia. Vinte minutos a desenrolar a toalha entre desconhecidos. Trinta e cinco graus à sombra que não há. Algures entre o terceiro e o quarto dia desta rotina, qualquer pessoa sensata pergunta se não haverá outra coisa. Há.
O Algarve do interior não está em fila. A serra do Caldeirão fica dez graus mais fresca que Albufeira, as quedas de água de Loulé têm a função social de substituir a praia quando os locais querem fugir aos turistas, e Monchique, lá em cima, é quase um clima diferente. Este é o roteiro para esse dia em que decidiste cortar o nó e desistir do mar.
A regra é simples: começa cedo. Antes das nove já estás no Mercado de Loulé, porque entre as dez e o meio-dia o calor instala-se e o resto do dia faz-se a subir em altitude. Acabas em cima da Fóia, onde o ar tem outro peso.
Mercado de Loulé
Quatro cúpulas avermelhadas. É assim que reconheces o edifício antes de entrar, a partir de qualquer rua do centro histórico de Loulé. Construído em 1908 num estilo revivalista de inspiração islâmica, o Mercado Municipal de Loulé foi o projecto mais ambicioso do Algarve naquela primeira década do século XX, e ainda hoje parece querer provar alguma coisa.
Queda do Vigário
Vinte e quatro metros de queda vertical, num jacto que embate no fundo num lago em forma de alguidar. A ribeira de Alte percorre a Serra do Caldeirão, alimenta-se nas fontes da aldeia e despenca numa parede de tufo calcário: rocha formada pelo próprio carbonato de cálcio que a água vai depositando ao longo dos anos, construindo a cascata à sua própria custa.
Castelo de Silves
Há uma pedra específica que dás por ela mal entras em Silves: o grés avermelhado, cortado aqui mesmo, que reveste as muralhas do castelo e lhe dá a tonalidade que não esqueces. Não é tinta, não é restauro recente. É o material de origem, chamado grés de Silves, que os construtores islâmicos usaram para forrar a taipa que ergueram no ponto mais alto da colina.
Sé Catedral de Silves
Entra e a primeira coisa que vês é a cor. O arenito vermelho de Silves é o material inteiro do edifício, em cada bloco da fachada, em cada arco. Não é decoração: é a pedra desta terra.
Miradouro da Fóia
Novecentos e dois metros acima do mar. Cá em cima o vento é outro, a temperatura desce e o horizonte abre de uma forma que nenhuma outra cota do Algarve consegue igualar. A Fóia é o ponto mais alto de toda a região, e isso vê-se, sente-se e ouve-se no silêncio que as antenas de telecomunicações não conseguem anular.
Ao fim do dia já não sentes a falta da praia. Amanhã podes voltar a perder duas horas a estacionar, ou podes começar a calcular quantos outros dias destes ainda cabem nesta semana.







