o alentejo que mais ninguém esperava: bosque, frio e morcegos
É o ponto mais alto do Alentejo (1.025 metros no pico de São Mamede) e o único parque natural da região. A Serra de São Mamede sobe abruptamente da planície, no extremo nordeste alentejano contra a fronteira espanhola, e cria por cima de si um microclima que não existe em mais lado nenhum do Alentejo. Chove mais, faz mais frio, e a humidade fica retida. O parque ocupa 56.000 hectares distribuídos por quatro concelhos (Portalegre, Castelo de Vide, Marvão e Arronches) e funciona como uma fronteira biológica: encosta norte sub-atlântica, com carvalhais, castanheiros e cerejeiras; encosta sul mediterrânica, com sobreiros, azinheiras e olivais nas vertentes íngremes apoiados em muros de pedra seca centenários.
A fauna acompanha. O símbolo é a águia-de-Bonelli, das rapinas mais raras de Portugal (menos de 140 casais em todo o país), que nidifica nas escarpas quartzíticas. Há também grifos, abutres-pretos, bufos-reais, águias-cobreiras, e umas 150 espécies de aves inventariadas pelo Atlas das Aves do PNSSM. Em mamíferos, javalis, genetas, gatos-bravos, veados na zona norte, lontras nas linhas de água. Mas a espécie que dá notoriedade europeia à serra é o morcego: na antiga mina de chumbo da Cova da Moura, em Portalegre, vive uma colónia de criação com cerca de 20.000 morcegos-de-peluche, uma das mais importantes da Europa. A mina não se visita, mas a serra inteira é território de morcego em entardecer de verão.
A serra é também encruzilhada hidrográfica: os rios Sever e Xévora dividem-se entre as bacias do Tejo e do Guadiana, e há água em abundância em sítios onde no resto do Alentejo já estava tudo seco. Para mergulho, a Praia Fluvial de Portagem, aos pés do castelo de Marvão, é a opção mais conhecida. Para vista, o cume de Marvão e o de Castelo de Vide, no concelho vizinho, são os miradouros naturais. O Museu Monográfico da Cidade Romana de Ammaia fica dentro do parque, na várzea da Aramenha.
Vai em primavera ou outono, se podes. Em abril e maio a serra está coberta de flor (a rosa-albardeira, o narciso-trombeta, o selo-de-salomão são endémicos ou raros que aqui têm habitat). Em outubro as cerejeiras e os castanheiros mudam de cor. Em julho e agosto a planície circundante arde de calor, mas a serra dá uma trégua de cinco a sete graus. Em janeiro pode nevar nas cotas altas, o que para um alentejano é acontecimento.
vai sabendo que
- a serra atravessa-se de carro pela N246 e M1037; trilhos sinalizados há vários, com mapas no Posto de Turismo de Portalegre, Castelo de Vide e Marvão
- a colónia de morcegos da Cova da Moura não se visita por motivos de conservação; observação faz-se ao anoitecer no campo aberto
- as escarpas quartzíticas onde nidifica a águia-de-Bonelli têm zonas restringidas em época de criação (fevereiro a junho); respeitar sinalização
- na encosta norte, primavera começa cedo (março/abril com flor); na sul, mais tarde
- não há entrada de parque com bilheteira; circula-se livremente pelas estradas e caminhos públicos




