sete séculos de obra militar e ninguém demoliu nada
O Castelo de Marvão ocupa o extremo norte da vila de Marvão, na crista quartzítica mais alta a sul do Tejo. Cresceu por sobreposição: cada época que precisou de defender o lugar acrescentou ao que estava em vez de partir e refazer. A literatura militar chama-lhe 'sobreposição de fortalezas' e em Marvão lê-se a olho. Os panos mais antigos, com a Torre de Menagem original e a Porta da Traição, são do final do século XII e início do XIII, quando D. Afonso Henriques toma o sítio e D. Sancho II lhe dá foral em 1226. A cerca urbana é do século XIV. A cisterna grande e a configuração actual da Torre de Menagem são do XV. Os baluartes estrelados e as portas reforçadas (Rodão, Vila, Fortim, Rua Nova) são do XVII, no contexto das Guerras da Restauração. Não há aqui uma camada que tenha apagado a anterior. Estão todas à vista.
A peça que mais surpreende fica debaixo do solo. A cisterna grande, no albacar do castelo, tem cerca de 10 metros de altura e 46 de comprimento, abóbada de berço de 10 tramos sobre arcos diafragma, cantaria siglada com profusão de marcas de canteiro. É uma das maiores cisternas de castelos portugueses, e ainda enche. A água vinha das claraboias da cobertura, das caleiras dos telhados, de oito bueiros, e de uma levada que atravessava o recinto inferior. Em situação de cerco, estima-se que abastecesse a vila inteira durante meses. Desce-se por escadas em pedra irregular, com iluminação fraca; o cuidado com o piso é real.
A Porta da Traição é a outra peça que vale a procura. Acede-se por um corredor estreito aberto a picão na rocha viva, entre duas casas brancas, e dá directamente para o pano exterior da muralha. Era a saída discreta, para fugir, contra-atacar ou enviar emissários sem usar as portas oficiais. Hoje serve para perceber, em poucos metros, o que significava viver sob cerco. A Torre da Bandeira, junto à entrada, sobe-se pelo interior até ao terraço com vista sobre a vila e o recinto. Da Torre de Menagem, ao fundo, alcança-se o panorama completo: a Serra de São Mamede para sul (a fronteira do Parque Natural começa onde as muralhas acabam), a Serra da Estrela ao longe a norte em dias limpos, e o vale onde os romanos tinham Ammaia, a cidade que Ibn Marwan veio aproveitar quando subiu ao cume no século IX.
A visita faz-se ao próprio ritmo, sem percurso obrigatório. Em julho e agosto chegam autocarros de excursão e a Torre de Menagem e a cisterna ficam com fila. Cedo de manhã ou ao fim da tarde, com o sol baixo sobre as muralhas, tens o castelo quase para ti.
vai sabendo que
- estaciona-se fora das portas da vila, normalmente junto à Porta de Rodão; ao castelo sobe-se a pé pela vila inteira
- a cisterna grande desce-se por escadas irregulares com pouca luz; calçado com aderência ajuda
- a Porta da Traição fica entre duas casas brancas e passa despercebida a quem não a procura
- os baluartes da Restauração permitem caminhar em volta da fortaleza pelo exterior das muralhas
- por vezes há eventos no recinto que fecham parte do castelo; vale a pena confirmar no posto de turismo antes da subida



