o jardim filosófico do monteiro dos milhões
A Regaleira não é uma quinta antiga reaproveitada nem um castelo medieval restaurado, embora pareça as duas coisas. É uma obra do início do século XX, projectada entre 1898 e 1911 por encomenda de António Augusto de Carvalho Monteiro, brasileiro de origem, herdeiro de uma fortuna do comércio do café e das pedras preciosas, e por isso conhecido em Lisboa como Monteiro dos Milhões. D. Carlos I distinguiu-o em 1904 com o título de Barão de Almeida. Carvalho Monteiro comprou a propriedade em 1892, e encomendou a obra ao arquitecto italiano Luigi Manini, ex-cenógrafo do La Scala de Milão e do São Carlos de Lisboa, também autor do Palácio do Bussaco. O conjunto está classificado como Imóvel de Interesse Público desde 2002, e integra a Paisagem Cultural de Sintra, Património Mundial UNESCO desde 1995.
O que vês é arquitectura neomanuelina, neogótica e neorrenascentista, levantada em quatro hectares de encosta da serra. O palácio em si tem fachada decorada com elementos manuelinos exuberantes (esferas armilares, cordas, motivos vegetais), e foi terminado por volta de 1910, ainda na monarquia. A pedra dos túneis e das grutas foi importada da orla marítima de Peniche, e em vários elementos foi tratada com líquenes e técnicas químicas para criar pátina envelhecida. A aparência de coisa antiga é deliberada. Não há fundações templárias, não há origens medievais escondidas: é cenografia simbólica do início do século XX a fingir-se de séculos atrás.
O que torna a quinta única é o programa iconológico de Carvalho Monteiro, que era homem culto, coleccionador de livros raros, e leitor atento da tradição esotérica europeia (Maçonaria, Templários, Rosa-Cruz, Divina Comédia de Dante, alquimia). A Quinta foi concebida como percurso simbólico, com peças nomeadas e dispostas em sequência: Patamar dos Deuses, Portal dos Guardiães, Lago da Cascata, Capela, Terraço das Quimeras, Estufa, e várias grutas (do Labirinto, do Aquário, da Virgem, de Leda). A peça mais conhecida é o Poço Iniciático, uma torre invertida com cerca de 27 metros de profundidade, organizada em nove patamares separados por lanços de quinze degraus cada um, em escada em espiral sustentada por colunas. No fundo está embutida em mármore uma rosa dos ventos de oito pontas sobre uma cruz templária, o emblema heráldico do próprio Carvalho Monteiro. A descida é uma alegoria à Divina Comédia: nove círculos do Inferno, nove secções do Purgatório, nove céus do Paraíso.
A entrada do poço está disfarçada entre as rochas. Do fundo partem túneis subterrâneos cobertos com pedra de Peniche que ligam o poço a outros pontos da quinta (à Entrada dos Guardiães, ao Lago da Cascata, ao Poço Imperfeito, este último com cerca de nove metros). Andar pelos túneis é parte do percurso. A capela junto ao palácio, restaurada recentemente, tem cripta acessível pela mesma rede subterrânea. Quanto ao palácio em si, apenas o piso nobre está aberto ao público (o resto não integra o circuito): vais ver a Sala de Bilhar (ou Sala dos Reis, com mobiliário recentemente resgatado em leilão) e algumas das peças decorativas originais.
Vai logo na abertura, às 10h. Em julho e agosto a Regaleira é um dos sítios mais cheios de Portugal, e os patamares estreitos do Poço Iniciático fazem fila a sério a meio da manhã. Em janeiro e fevereiro tens o sítio quase só para ti, com a desvantagem do frio sintrense (e da humidade dentro dos túneis).
a cena toda
- conjunto neomanuelino do início do século XX, projectado por Luigi Manini para Carvalho Monteiro
- quatro hectares de encosta com palácio, capela, grutas, torres, lagos e túneis
- Poço Iniciático com 27 m de profundidade e nove patamares, alegoria à Divina Comédia
- pedra dos túneis importada de Peniche, com pátinas químicas a fingir antiguidade
- apenas o piso nobre do palácio está aberto à visita, o resto é jardim e subterrâneo



