Soajo
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Soajo

a aldeia que teve foral próprio, juiz próprio e ainda guarda o milho em conjunto

Soajo fica no concelho de Arcos de Valdevez, encaixada entre a Serra Amarela, a Serra do Soajo e o vale do rio Lima, dentro do Parque Nacional da Peneda-Gerês. Hoje é uma freguesia entre dezenas, mas durante mais de três séculos foi muito mais do que isso: D. Manuel I outorgou-lhe Foral em Outubro de 1514, e até às reformas liberais de meados do século XIX foi concelho próprio, abrangendo as freguesias vizinhas de Ermelo e Gavieira. Tinha juiz eleito pelo povo, Monteiros com privilégios régios para vigiar a serra (a montanha aliás chamou-se exclusivamente Serra de Soajo até 1861, só depois passou a designar-se também serra da Peneda), e uma organização comunitária que ainda se vê escrita na paisagem. Os achados arqueológicos (mamoas, antas, o Santuário Rupestre do Gião) provam ocupação muito anterior.

A imagem que faz Soajo conhecida é a Eira do Penedo: 24 espigueiros graníticos do tipo galaico-minhoto, alinhados sobre uma enorme laje de granito à entrada da aldeia. Cada um pertence a uma família, a eira é colectiva, e o conjunto está classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1983. O mais antigo datado tem 1782 inscrito. Têm cobertura de duas águas em pedra, pilares com mós circulares para travar roedores, e cruzes nos topos que servem ao mesmo tempo de respiradouros e de protecção simbólica. É um dos sítios mais fotografados do Minho, mas a função é genuína — alguns ainda hoje secam milho. No Largo do Eiró, mais para o centro da aldeia, fica o pelourinho do século XVI, considerado um dos mais enigmáticos do país pelo seu remate atípico (não tem a ponta clássica nem brasão; tem uma figura que ninguém sabe ao certo o que representa).

A freguesia tem 59 km², com casario disperso por vários lugares (Bairros, Carreiras, Costa Velha, Cruzeiros, Eiró, Fraga da Mó, Lage, Raposeiras, Rio Bom, Teso, Torre). É território de brandas e inverneiras, sistema de habitat sazonal único do alto Minho: a branda fica em altitudes acima dos 600 metros, ocupada no verão para pastoreio e cultivo; a inverneira é mais permanente, abrigada e fica em cotas mais baixas. Em Soajo este sistema ainda se mantém em parte, sobretudo com gado. O Poço Negro fica a um quilómetro dos espigueiros, no rio Adrão, e é a paragem natural de quem visita a aldeia em pleno verão. O Parque Biológico da Porta do Mezio está a uns minutos de carro e funciona como porta de entrada estruturada para o lado norte do parque. Para quem quer fazer a comparação histórica óbvia, Lindoso fica a cerca de 30 km — tem 50 espigueiros em vez de 24, mas Soajo tem o afloramento granítico mais espectacular dos dois.

A aldeia tem ganho moradores novos nos últimos anos, incluindo de fora do país, e foi-se tornando uma espécie de laboratório onde tradições e vida nova convivem. Em pleno verão enche, sobretudo aos fins-de-semana de julho e agosto, com circulação difícil pelas ruas estreitas. Fora de pico, em abril, maio, setembro ou outubro, tem-se a Eira do Penedo praticamente para si próprio ao final do dia.

vai sabendo que

  • a Eira do Penedo fica à entrada da aldeia, sobre afloramento granítico, com acesso livre e a pé
  • os espigueiros são propriedade privada das famílias; alguns ainda funcionam para secar milho
  • estaciona-se no início da aldeia ou junto ao Largo do Eiró; ruas internas estreitas, com calçada
  • a freguesia é dispersa por vários lugares; explorar a aldeia para lá do núcleo central exige carro
  • em pleno verão enche, sobretudo aos fins-de-semana; abril, maio e setembro são as melhores alturas

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