o ex-líbris que se ganha a subir
Setenta e cinco metros de granito a cortar o céu do Porto. A torre foi concluída em 1763 com a colocação de uma cruz de ferro no topo, e desde então domina a paisagem da cidade com uma insistência que nenhum edifício novo conseguiu ainda contrariar. Nicolau Nasoni, o arquitecto italiano que a projectou, quis ser enterrado aqui. Difícil encontrar declaração de amor mais directa a uma obra.
Os 225 degraus que levam ao cimo da Torre dos Clérigos não são uma metáfora de nada: são 225 degraus de pedra numa espiral apertada, com janelas que vão deixando entrar a cidade aos bocados. Lá em cima, o panorama cobre o Porto inteiro e ainda Vila Nova de Gaia do outro lado do rio. A torre foi também usada como ponto de orientação para embarcações que entravam pelo Douro, o que diz muito sobre o peso que tem na leitura da cidade desde o mar.
O conjunto vale mais do que a subida. A Igreja dos Clérigos, de nave única em granito e mármore, tem o tardo-barroco trabalhado ao limite: fachadas onduladas, arcos interrompidos, uma profusão de janelas que Nasoni usou como vocabulário próprio. O Museu dos Clérigos organiza o acervo da Irmandade e acompanha a biografia do arquitecto, incluindo a cripta onde poderá estar a sua sepultura, descoberta numa reabilitação recente. Há ainda concertos regulares de órgão de tubos, o que transforma uma visita de arquitectura numa coisa com som.
nasoni e o barroco que não se repete
O conjunto dos Clérigos é considerado a obra mais emblemática de Nasoni em Portugal, e percebe-se porquê. O estilo não é barroco genérico: a ornamentação granítica mistura morfologia rococó com linhas de continuidade vernácula que não têm paralelo directo noutros monumentos portugueses. O granito, material associado a uma certa contenção nortenha, aqui aparece esculpido com exuberância italiana. O resultado é uma tensão que se lê na pedra, especialmente na fachada principal.
Nasoni trabalhou neste projecto durante anos, comprometido com ele de forma que vai além da encomenda. A Irmandade dos Clérigos, que ainda hoje gere o conjunto, honrou esse compromisso: quando morreu, em 1773, dez anos depois de ver a torre concluída, foi sepultado numa pequena capela da igreja. A classificação como Monumento Nacional chegou em 1910, mas o reconhecimento prático existia muito antes.
o que vais encontrar
- 225 degraus até ao topo, com janelas que cortam a subida em pausas com vista
- panorama sobre o Porto e Gaia que inclui o Douro, a Ribeira e a linha da Foz
- museu com acervo da Irmandade e percurso sobre a vida e obra de Nasoni
- concertos de órgão de tubos com agenda regular
- cripta com possível sepultura do arquitecto, aberta ao público após reabilitação recente



