a aldeia do xisto que afinal é de granito
A primeira coisa que percebes ao chegar ao Coentral Grande é que a pedra está trocada. As casas são de granito, num enclave geológico raro com cerca de 582 milhões de anos, dentro de uma região onde tudo o resto à volta é xisto. Mesmo assim, é a aldeia mais recente da Rede das Aldeias do Xisto: aderiu a 4 de julho de 2025 (foi a 28.ª), e o processo arrastou-se mais de uma década até acontecer.
A outra coisa que percebes é a altitude. Estás nas cotas mais altas da serra da Lousã, a poucos quilómetros do Santo António da Neve (1100 metros, antigo Cabeço do Pereiro), a segunda elevação mais alta da serra. A história que faz desta aldeia o que ela é tem nome próprio: neveiros. Nos séculos XVIII e XIX, a população do Coentral subia à serra para apanhar a neve, levava-a em cestas até aos poços de xisto e barro com abóbadas em forma de sino, calcava-a com maços de madeira até virar gelo, e cobria tudo com palha e fetos. O gelo conservava-se assim até ao verão. Depois descia em carros de bois até Constância, passava para barco no Zêzere e chegava ao Terreiro do Paço para os gelados do rei e da corte. Dos sete poços originais ainda restam três, classificados como Imóvel de Interesse Público desde 1986. A capela ali em cima foi mandada erguer em 1786 por Julião Pereira de Castro, neveiro-mor da Casa Real, para dar apoio religioso à operação.
A aldeia em si é pequena, perdeu gente, e os incêndios de 2017 deixaram marca em todo o território. Mas o lugar segura-se pelo que tem: a história, a altitude, e a ribeira que desce daqui pelos passadiços da Ribeira das Quelhas até à praia fluvial do Poço Corga. A Casa do Neveiro, no antigo edifício da Junta de Freguesia, conta o resto da história.
vai sabendo que
- a pedra aqui é granito; é um enclave dentro do xisto da serra
- os poços de neve visitam-se livremente; a estrada para cá é montanha estreita, sem urgência ao volante
- a Casa do Neveiro (núcleo museológico desde 2002) está no antigo edifício da Junta de Freguesia
- antes de descer, vê a Ribeira das Quelhas pelos passadiços que partem da aldeia




