Sítios que ficam melhores à chuva
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Sítios que ficam melhores à chuva

à chuva, portugal muda de cara e quase ninguém repara

A maior parte das pessoas trata a chuva como um problema a resolver. Cancela o passeio, foge para o café, espera que passe. Mas há sítios em Portugal que não estão apenas a aguentar o mau tempo: ficam genuinamente melhores quando o céu se fecha. A pedra escurece, o turismo evapora-se, a luz suaviza. O país que aparece nos folhetos não é este. Este é mais quieto, mais antigo, e quase sempre mais teu.

Começa pelo Santuário do Bom Jesus do Monte, em Braga. Toda a gente sobe aquelas escadas com sol e tira a fotografia em zigue-zague. Faz isso à chuva. A pedra fica preta de molhada, a água escorre pelas fontes barrocas que normalmente passam despercebidas, os autocarros de turistas não aparecem. Toda a encenação foi pensada para parecer dramática, e a chuva é exactamente o ingrediente que falta nos dias certinhos de Verão.

A Biblioteca Joanina, em Coimbra, é outro tipo de coerência. Lá dentro não chega humidade, o controlo é obsessivo, e mesmo assim sentes melhor o sentido do edifício quando lá fora a chuva está a fazer o que sempre fez à pedra portuguesa. O ouro nas talhas, as estantes que parecem altares, a colónia de morcegos que limpa os livros à noite. Tudo isto faz mais sentido quando o tempo lá fora não é convite para outra coisa.

O Mercado do Bolhão é coberto agora, depois das obras, e portanto à chuva continua a funcionar. Mas há uma diferença: nos dias bons enche-se de gente que passa pelo Porto e quer ver o mercado emblemático. À chuva, fica quem precisa de comprar peixe, fruta, flores. Volta a ser o que sempre foi antes da renovação levantar o tecto. Pede um café, encosta-te a uma banca, ouve o que se diz à tua volta. É outro mercado.

Mais a sul, o Convento de Cristo em Tomar tem oito claustros e quase nenhum deles é fácil de aproveitar com sol a bater. Com chuva, os tanques enchem, as canalizações góticas funcionam como sempre funcionaram, e percebes que o edifício foi feito a contar com este tempo, não a evitá-lo. A janela manuelina parece outra coisa quando o granito está molhado. Reserva pelo menos duas horas. Vais querer.

E no Douro superior, o Museu do Côa, em Vila Nova de Foz Côa, é o caso extremo. O edifício é uma cunha de betão enterrada na encosta sobre o rio. Em dia de sol, é arquitectura imponente. Em dia de chuva, com a paisagem do vale lavada de nevoeiro e os socalcos a brilhar, é quase outra coisa. As gravuras paleolíticas lá em baixo, ao ar livre, ficam intransitáveis com o tempo mau, mas o museu por si só justifica a viagem nesse dia em que ninguém mais sobe até Foz Côa.

O ponto não é fugir da chuva. É escolher o sítio certo para a ter à volta. Há mais espalhados pelo país, no mapa vê-os todos juntos e descobres o que te apanha pelo caminho. Quando a meteorologia disser que a semana é uma desgraça, lembra-te que isso é só meia leitura.

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