o apartamento onde o espólio ainda respira
Campo de Ourique não é o bairro que aparece nos roteiros habituais de Lisboa, mas é aqui que Fernando Pessoa passou os últimos quinze anos da vida. O andar da Rua Coelho da Rocha foi a última morada antes do hospital. Entras num prédio reconstruído quase de raiz nos anos 90 (só a fachada, as escadas e duas divisões são originais), mas o peso do que ali ficou não depende das paredes.
A Casa Fernando Pessoa guarda cerca de 1300 títulos da biblioteca pessoal do escritor, mais de metade em inglês, muitos com anotações feitas por ele. É este acervo que justifica a visita acima de tudo: não tanto o poeta como mito, mas o leitor que sublinhou, discutiu e pensou em cima dos livros de outra gente. O espólio documental foi classificado Tesouro Nacional, e desde 2010 parte dele está acessível online, mas outra dimensão só existe aqui.
Há também uma biblioteca pública especializada em Pessoa e em poesia internacional, aberta a qualquer pessoa, sem necessidade de credenciais académicas. E um programa de exposições, leituras e visitas que trata o arquivo como material vivo, não como relíquia. Para quem leu Pessoa sem nunca ter percebido bem onde é que ele existia fisicamente, este apartamento no coração burguês de Lisboa responde a essa pergunta de forma inesperadamente concreta.
a biblioteca que ele deixou
Os livros que Pessoa comprou, recebeu, anotou e carregou ao longo da vida são o núcleo duro da colecção. Mais de metade são em inglês, o que diz muito sobre a formação de alguém que passou a infância e a adolescência em Durban e pensava em várias línguas ao mesmo tempo.
A possibilidade de aceder à biblioteca pública da Casa sem ser investigador especializado é um pormenor que muita gente desconhece. Podes sentar-te com poesia portuguesa e mundial numa sala a metros de onde Pessoa dormia. Isso não acontece em mais nenhum sítio de Lisboa.
o que vais encontrar
- os livros anotados por Pessoa, com a sua letra nas margens
- duas divisões originais do apartamento da família
- biblioteca pública com entrada livre, separada da exposição
- programa cultural com visitas orientadas e leituras regulares
- Campo de Ourique mesmo à volta: mercado, tascas, nenhum turista de packaged tour





