a aldeia não está sobre o granito, está dentro dele
O cabeço de Monsanto é um inselberg granítico que se ergue abruptamente da planície da Beira Baixa, no concelho de Idanha-a-Nova, e atinge 758 metros no cume. A aldeia agarra-se à encosta, mas a forma como o faz é o que a distingue de qualquer outra. As casas não estão sobre o granito: estão encaixadas nele. Blocos de várias toneladas servem de parede, tecto e chão. Há habitações em que uma única pedra cobre o telhado inteiro. Outras crescem em volta de penedos que nunca saíram do sítio. As ruas estreitam-se entre rochas porque ninguém ousou (ou conseguiu) mexer-lhes.
No cume fica o castelo, ou o que dele resta. Foi edificado pelos Templários sob ordem de D. Gualdim Pais a partir de 1165, sobre uma ocupação anterior, e resistiu a sucessivos cercos durante séculos. Em 1815, durante as Guerras Peninsulares, um raio fez explodir o paiol de munições instalado no interior. Da fortaleza ficou pouco: a Torre do Peão, ruínas da Torre de Menagem, troços de muralha, e as duas capelas que ainda lá estão (a de S. Miguel, do século XII, exemplo singular do românico tardio, e a de Santa Maria do Castelo, barroca, do XVIII). Sobes pela calçada e a vista paga o esforço: a planície da raia abre-se até Espanha num dia limpo.
Em 1938 foi eleita pelo Estado Novo "a aldeia mais portuguesa de Portugal". O título trouxe atenção e marco de pedra à entrada, mas Monsanto manteve a escala. Não se encheu de lojas ao quilómetro nem se desfigurou em fachada. A 3 de maio acontece a Festa da Divina Santa Cruz, uma das festas etnográficas mais singulares do país: mulheres sobem ao castelo com adufes e com as marafonas (bonecas de trapos sem olhos nem nariz, em armação de cruz), e do alto da muralha lançam um pote de barro caiado de branco e cheio de flores. O gesto evoca a lenda do cerco em que os sitiados, para iludir o inimigo, alimentaram a última bezerra com o último trigo e atiraram-na das muralhas: ao rebentar lá em baixo, o trigo derramado fez crer que a praça ainda tinha mantimentos. O cerco foi levantado.
Vai num dia de semana fora de época, se puderes. Em julho e agosto a subida é quente e cheia. Em janeiro tens o lugar quase só para ti, com o vento da serra a entrar pelas pedras. Estaciona-se em baixo e sobe-se a pé, sempre. Se vais combinar com outra coisa do concelho, Idanha-a-Velha fica a cerca de quinze minutos de carro e é o oposto exacto: plana, romana, horizontal. Duas aldeias da mesma freguesia, dois extremos.
vai sabendo que
- estaciona-se em baixo e sobe-se sempre a pé; o piso é irregular, com calçada antiga e desnível sério
- do castelo só resta a Torre do Peão, ruínas da Torre de Menagem e duas capelas; o resto desapareceu em 1815
- a Festa da Divina Santa Cruz é a 3 de maio e enche a aldeia; se queres ver, vai com antecedência
- em julho e agosto o sol bate sem sombra na calçada e a subida custa mais do que parece
- não há concentração de comércio; sobe com água e o que precisas




