a aldeia que a barragem engoliu
Em 1971, a albufeira de Vilarinho da Furna subiu e tapou tudo: casas, caminhos, a Igreja de São João, as memórias de quem ali viveu durante séculos. Quando a água baixa, nos verões mais secos, os muros voltam à superfície como um fantasma em pedra. O museu existe precisamente por causa disso.
O Museu Etnográfico de Vilarinho da Furna foi fundado por iniciativa dos próprios habitantes desalojados, que recusaram deixar desaparecer o registo da sua vida comunitária. O que guardaram é impressionante: alfaias agrícolas, utensílios domésticos, fotografias, documentos e os testemunhos de uma aldeia que funcionava em regime comunitário quase único no país, com assembleias de vizinhos a decidir tudo desde os pastos até às colheitas.
Estás no Gerês, num sítio onde o passado não é reconstituição turística mas memória viva de pessoas que ainda existem. A história da aldeia submergida dá outra densidade a tudo o que vês nas vitrines, e sais daqui a olhar para a albufeira com olhos completamente diferentes.
uma comunidade fora do comum
Vilarinho da Furna não era uma aldeia qualquer. O modelo de organização colectiva que ali existia foi estudado pelo antropólogo Jorge Dias nos anos 50, tornando-a num caso de referência na etnografia portuguesa. As decisões partilhadas sobre terra, gado e trabalho não eram folclore: eram o sistema que mantinha a aldeia a funcionar há gerações.
Com a construção da barragem que inundou o vale, esse sistema deixou de ter lugar físico. O museu é, em grande medida, a tentativa de preservar não só os objectos mas a lógica de uma comunidade que organizava a vida de forma radicalmente diferente do resto do país.
o que vais encontrar
- os muros da aldeia submersa, visíveis da margem da albufeira em anos de seca
- espólio recolhido pelos próprios habitantes antes da inundação
- registos etnográficos do trabalho de campo de Jorge Dias
- uma colecção que conta uma história de expropriação, não só de tradição



