arte contemporânea a sério, num parque que não é decoração
O edifício branco que Álvaro Siza desenhou para a Fundação de Serralves em 1999 não tenta impressionar logo à entrada. É calculado, sereno, quase austero. E é exactamente essa contenção que faz o interior funcionar: as salas escalam bem com instalações grandes, a luz natural entra onde deve entrar, e nunca sentes que o espaço está a competir com o que está dentro dele.
Serralves não é um museu de colecção permanente no sentido clássico. O programa rotativo é denso e funciona a várias velocidades: exposições que ficam meses, ciclos de cinema, actividades no parque com investigadores reais, performance no auditório. Há sempre mais de uma exposição em simultâneo, e as dimensões variam bastante. Podes passar duas horas focado numa só artista ou fazer uma tarde inteira sem repetir espaço.
O parque de 18 hectares tem esculturas permanentes distribuídas pelo jardim formal, pela mata e pelos campos agrícolas. Não é apêndice do museu. É parte do programa. A Casa de Serralves, o palacete Art Déco dos anos 30 que deu origem a tudo isto, recebe exposições próprias e tem uma atmosfera completamente diferente do cubo branco de Siza.
A Casa do Cinema Manoel de Oliveira é o terceiro eixo, menos visitado, e onde o programa é mais especializado. Se o cinema português te interessa a sério, é por aí que começas.
três sítios num sítio
Siza desenhou o museu para se relacionar com o parque em termos físicos: entradas, eixos visuais e transições entre interior e exterior são parte do projecto, não acidentes. A Casa de Serralves, construída para a família Delfim Ferreira, mantém os interiores originais em alguns compartimentos, o que cria um contraste directo com as instalações contemporâneas que recebe.
O parque foi desenhado por Jacques Gréber, o mesmo urbanista do plano de Lisboa dos anos 40. Tem vegetação centenária, uma roseiral, uma horta em actividade e um lago. A programação de ciência e botânica que acontece aqui não é pretexto. Há investigadores do CIIMAR e da Floradata envolvidos, e as saídas de campo nocturnas para anfíbios são o tipo de actividade que não encontras noutro museu português.
o que encontras
- o museu branco de Siza, a Casa Art Déco e a Casa do Cinema: três programas distintos no mesmo bilhete
- esculturas permanentes pelo parque, sem sinalética agressiva
- programa de cinema com foco em Manoel de Oliveira e cinema português
- actividades de ciência no parque com investigadores de instituições reais
- loja com edições de artistas e catálogos difíceis de encontrar noutro lado




