Palácio Nacional de Mafra
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Palácio Nacional de Mafra

a obra que mudou o paradigma das artes em Portugal

O conjunto que vês em Mafra é o Real Edifício, e tem cinco peças que se visitam como uma só: o palácio, a basílica, o convento, o Jardim do Cerco e a Tapada. Está classificado como Património Mundial UNESCO desde 2019, e é Monumento Nacional desde 1907. A primeira pedra foi lançada a 17 de novembro de 1717, por iniciativa de D. João V em cumprimento de um voto pela sucessão dinástica. O projecto definitivo é do arquitecto suábio Johann Friedrich Ludwig (em Portugal, João Frederico Ludovice), com base em estudos prévios do italiano Filippo Juvarra, e a obra foi conduzida pelo engenheiro-mor Custódio Vieira. A basílica foi sagrada a 22 de outubro de 1730, no 41º aniversário do rei, e o conjunto ficou concluído na década seguinte.

A basílica, inspirada nas grandes igrejas de Roma, tem uma das colecções mais significativas de escultura italiana do seu tempo: 58 estátuas de vulto, três altos-relevos e um grande crucifixo com arcanjos, maioritariamente em mármore de Carrara, executados em Roma e Florença. É arte que aqui chegou directamente do epicentro do barroco europeu.

A peça que mais se destaca é a Casa da Livraria. É a maior biblioteca europeia do século XVIII numa única sala: 1.000 metros quadrados, com cerca de 30.000 volumes, em estantes em dois pisos desenhadas pelo arquitecto mafrense Manuel Caetano de Sousa. As estantes foram instaladas em 1776 e os livros distribuídos em 1791. A colecção representa o conhecimento iluminista por inteiro: religião, medicina, farmácia, história, filosofia, direito, ciências exactas. Tem incunábulos do século XV, a primeira tradução latina do Alcorão de 1543, uma Bíblia poliglota em sete línguas, atlas aguarelados, obras anotadas pela Inquisição. E uma curiosidade que se transformou em assinatura: duas colónias de morcegos vivem na sala e fazem a desinfestação dos insectos que comem o papel e a madeira. O sistema funciona há séculos.

A basílica tem ainda um conjunto único de seis órgãos pensados para tocarem em conjunto, construídos entre 1792 e 1807 pelos organeiros portugueses António Machado e Cerveira e Joaquim Peres Fontanes. Há concertos regulares com este conjunto, e ouvi-los justifica voltar. Pelo conjunto sineiro andam 120 sinos, integrando dois dos maiores carrilhões do século XVIII, fundidos em Antuérpia e Liège. Já fora do edifício, a Tapada estende-se por mais de mil hectares cercados por um muro histórico de 21 quilómetros, e pode visitar-se em separado, a pé, de bicicleta ou em comboio turístico. José Saramago escreveu sobre tudo isto em Memorial do Convento (1982), e ler o livro antes da visita muda o que vês.

a cena toda

  • Real Edifício barroco com palácio, basílica, convento, Jardim do Cerco e Tapada
  • obra entre 1717 e finais da década de 1730, sob D. João V
  • projecto de João Frederico Ludovice, baseado em estudos de Filippo Juvarra
  • Biblioteca de 1.000 m² com cerca de 30.000 volumes, vigiada por colónias de morcegos
  • basílica com seis órgãos para tocar em conjunto, único no mundo

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