o estádio escavado na pedreira, e o Pritzker que veio depois
O Estádio Municipal de Braga, conhecido como A Pedreira, foi construído entre 2000 e 2003 para acolher o Euro 2004, com a inauguração a acontecer em 30 de dezembro de 2003. O projecto é do arquitecto Eduardo Souto de Moura, em colaboração com o engenheiro Rui Furtado, e foi o estádio mais reconhecido internacionalmente dos cinco construídos em Portugal para o campeonato. A obra está na base do prémio Pritzker que Souto de Moura recebeu em 2011, e ganhou também os prémios Secil 2004 (Arquitectura) e 2005 (Engenharia Civil), além do Chicago Athenaeum International Architecture Award em 2006.
A ideia que orienta tudo é a integração na paisagem. O estádio está literalmente escavado na encosta norte do Monte Castro, numa antiga pedreira de granito. Em vez de aterrar o vale junto ao rio (o local inicialmente previsto), Souto de Moura propôs deslocar a obra para a pedreira, aproveitando o desnível e fazendo da rocha parte integrante da arquitectura. O resultado: duas bancadas opostas, e o resto. Numa das pontas o relvado encosta-se directamente à parede de granito esculpida, com 40 metros de altura, em corte limpo e visível. Na outra ponta, a vista abre-se para a cidade e para o vale, sem fundo construído. Não há bancadas atrás das balizas. É uma decisão radical para um estádio.
A cobertura é a outra peça que justifica a viagem. As duas bancadas laterais estão ligadas por dezenas de cabos de aço tensionados de uma à outra, suspensos sobre o relvado, e suportam dois grandes panos de cobertura em cada lado. A inspiração é declarada: as pontes incas do Peru, com cabos vegetais que ligam margens em vales profundos. O sistema metálico foi adoptado em fase de obra (o projecto original previa uma laje contínua de betão, como o Pavilhão de Portugal de Siza na Expo 98), e a solução final dá ao conjunto uma leveza que o betão maciço não daria. Quando vês o estádio em fotografia, é isto que reconheces.
Para visitar mesmo sem haver jogo, o SC Braga organiza visitas guiadas (Stadium Tour) com vários horários por dia, a primeira normalmente às 10h. O percurso passa pelos balneários, túnel de acesso, relvado, sala de imprensa e museu do clube, com narração sobre a arquitectura e a história. Para grupos, é melhor reservar com pelo menos 48 horas de antecedência. O estádio fica a cerca de dois quilómetros do centro de Braga (caminhada de meia hora, transporte público frequente), e o estacionamento à porta é limitado. Para quem se interessa por arquitectura contemporânea portuguesa, é paragem obrigatória, com ou sem jogo no calendário.
a cena toda
- projecto de Eduardo Souto de Moura, na base do Pritzker que recebeu em 2011
- estádio escavado em pedreira de granito desactivada, na encosta norte do Monte Castro
- duas bancadas opostas; as pontas são parede de rocha e vista para a cidade
- cobertura suspensa por cabos de aço, inspirada nas pontes incas peruanas
- visitas guiadas disponíveis, com várias sessões diárias e museu do clube



