Casa dos Bicos
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Casa dos Bicos

a fachada que sobreviveu ao terramoto

Vais a passar pelo Campo das Cebolas, entre o Terreiro do Paço e a colina do castelo, e a fachada aparece-te de lado: paredes inteiras cobertas de pirâmides de pedra, dispostas em fileiras geométricas, do chão até ao topo. Não há outra coisa parecida em Lisboa, e o efeito visual ao sol é o que torna o edifício imediatamente reconhecível mesmo para quem não sabe nada da história dele. Os bicos são literalmente bicos: peças de pedra calcária facetada que cobrem a parte inferior da fachada.

A casa foi construída em 1523 a mando de D. Brás de Albuquerque, filho natural de Afonso de Albuquerque (o segundo governador da Índia portuguesa). É das poucas casas senhoriais do século XVI que ainda restam em Lisboa, e o desenho da fachada é a tradução portuguesa de uma moda renascentista italiana (palácios com fachadas em diamantes, como o Palazzo dei Diamanti em Ferrara). O contexto explica: era o tempo do comércio com Itália, das influências cruzadas, e a casa de um filho de Albuquerque podia dar-se ao luxo do gesto.

O terramoto de 1755 destruiu os pisos superiores. A reconstrução posterior reduziu o edifício, e só na década de 1980 é que foi recuperado para uso público com a aparência aproximada do original (com os pisos superiores ainda em forma simplificada). Lá dentro está hoje a Fundação José Saramago, com exposição permanente dedicada ao escritor (manuscritos, objectos pessoais, biblioteca), e um núcleo do Museu de Lisboa no rés-do-chão, com vestígios arqueológicos da muralha romana e medieval que aqui passa por baixo.

A visita não é longa: hora e meia chega para ver a fundação e os vestígios arqueológicos. O programa Saramago é o mais consistente, com material original do autor e enquadramento literário cuidado. Para fora do edifício, a oliveira plantada na praça em frente marca o sítio onde estão depositadas as cinzas do escritor, desde 2011.

o que vais encontrar

  • fachada em bicos de pedra calcária, peça única em Lisboa
  • construção de 1523 por encomenda de D. Brás de Albuquerque
  • Fundação José Saramago no piso superior, com manuscritos e biblioteca pessoal
  • núcleo do Museu de Lisboa no rés-do-chão, com vestígios da muralha antiga
  • oliveira na praça em frente, com cinzas do escritor depositadas

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