uma casa com história acumulada ao peso de seis séculos
Há um jardim no centro do Funchal onde estão enterradas janelas. Não é metáfora: dois vãos manuelinos do século XVI, que pertenciam ao antigo Hospital da Misericórdia, ficaram encaixados numa parede do jardim quando o edifício original foi demolido. O Museu da Quinta das Cruzes funciona assim, como depósito consciente do que a cidade ia deitando fora.
O terreno tem uma história longa. No século XV, foi aqui que João Gonçalves Zarco, primeiro capitão-donatário do Funchal, viveu os seus últimos anos. A moradia que vês hoje ganhou a forma actual em obras dos séculos XVIII e XIX, mas o jardim guarda fragmentos de construções muito mais antigas, recolhidos de demolições pelo Funchal durante os últimos dois séculos.
O museu nasceu de duas colecções privadas: a de César Gomes, ourives que doou tudo em 1946, e a de Hans Wetzler, refugiado austríaco da Segunda Guerra que chegou à Madeira em 1939 e aqui se tornou antiquário, legando a sua ourivesaria em 1966. São eles que dão à casa o seu carácter de residência habitada, não de sala de exposições.
o que fica na memória
Nos jardins há um orquestrofone de 1900, um instrumento mecânico de grandes dimensões que ainda toca. Há também fontenários em fajoco com um fresco do século XVIII, e pedras tumulares encostadas a paredes, incluindo o que a tradição diz ser a campa de Henrique Alemão, um dos primeiros povoadores da ilha. Lá dentro, o acervo vai do mobiliário português e inglês à cerâmica oriental, com pinturas e joalharia que cobrem do século XV à primeira metade do XX. Uma casa que não é réplica de nada.
vai preparado para
- o jardim pede tempo, não é só passagem para o interior
- as janelas manuelinas encaixadas na parede do jardim, fáceis de ignorar
- o orquestrofone: pergunta quando toca
- uma escala de casa que torna tudo mais próximo do que num museu convencional



