Vilarinho da Furna
Carlos Cunha CC BY-SA 3.0 · Wikimedia Commons
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Vilarinho da Furna

em anos de seca volta a sair, para a ver nos outros mete fato de mergulho

Vilarinho da Furna ficava no sopé da Serra Amarela, na freguesia de Campo do Gerês (antigamente São João do Campo), concelho de Terras de Bouro, dentro do que hoje é o Parque Nacional da Peneda-Gerês. O nome correcto é Furna, no singular. Foi a barragem que lhe alterou o nome para Furnas, no plural, e a corruptela ficou colada à aldeia para sempre. As origens perdem-se na profundidade do tempo (há vestígios romanos na zona, mas a aldeia em si não tem data conhecida de fundação) e o que se sabe com firmeza é que durante séculos foi aldeia comunitária: propriedade colectiva da terra, decisões em conjunto, juiz eleito pelo povo, eira, forno e moinho comuns. Era um dos casos mais estudados deste modelo em Portugal. Tinha 57 famílias quando o fim chegou.

O fim chegou em 1 de janeiro de 1971. Nesse dia caía neve sobre os telhados pela última vez. As obras da barragem do rio Homem tinham começado no início dos anos 60 contra a vontade do povo, foram concluídas em 1970, e em 1971 a albufeira foi enchida. A inauguração oficial veio em 1972, pelas mãos do Almirante Américo Tomaz. Os habitantes tinham sido expulsos com prazo, sem alternativa de realojamento colectivo (ao contrário do que viria a acontecer décadas depois com Aldeia da Luz no Alqueva). Em outubro de 1985, os antigos moradores fundaram a AFURNA (Associação dos Antigos Habitantes de Vilarinho da Furna), que continua a gerir a memória do lugar. Em 1989 inauguraram o Museu Etnográfico de Vilarinho da Furna, em Campo do Gerês, num edifício construído com pedras recuperadas das casas submersas. Quem quiser perceber a aldeia antes de a procurar passa primeiro por lá.

A aldeia em si está debaixo de 30 metros de água no pico do verão, com temperaturas que oscilam entre os 7°C e os 21°C consoante a estação. Em anos de seca grande, a albufeira baixa o suficiente para deixar a meia altura ou mais à vista. Telhados desapareceram, mas paredes graníticas, muros, caminhos, lareiras, fornos, tanques e bebedouros de gado mantêm-se reconhecíveis. Em 2022 a seca pôs metade da aldeia descoberta e a AFURNA abriu o acesso a visitantes. Nos anos em que a água está cheia, a única forma de a visitar é mergulhar: o local está consolidado como spot de mergulho desde 1999, com algumas fachadas intactas e estruturas comunitárias preservadas a profundidades variáveis. Não há operação comercial de mergulho na margem da albufeira... quem mergulha leva o equipamento próprio (botijas, fato, lastros) e organiza-se em grupo.

A forma habitual de chegar é estacionar perto da barragem e seguir cerca de um quilómetro a pé por estrada de terra batida. O caminho é privado, propriedade dos antigos habitantes, mas o acesso a pé é livre. O acesso de carro até à margem onde está a aldeia depende de chave que a AFURNA detém e cede, geralmente mediante taxa de manutenção. Sem essa autorização, carregar botijas de mergulho ou material pesado é inviável. Quem vai a pé vai para piquenique e contemplação. Do Museu Etnográfico de Vilarinho da Furna, em Campo do Gerês, sai-se com a aldeia inteira na cabeça antes de a procurar na água.

vai sabendo que

  • a aldeia só está visível em anos de seca pronunciada ou durante limpezas da albufeira; nos outros está submersa entre 0 e 30 metros
  • o nome correcto é Vilarinho da Furna (singular); o plural 'Furnas' aparece colado à barragem por corruptela
  • o acesso comum é a pé, cerca de 1 km de terra batida a partir da barragem; o acesso de carro até à margem exige chave/autorização da AFURNA
  • para mergulho é necessário levar todo o equipamento próprio; não há operação comercial estabelecida na margem
  • antes de procurar a aldeia, passa pelo Museu Etnográfico em Campo do Gerês — é o contexto que faz a diferença entre ver pedras e ver uma comunidade

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